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Do combate à corrupção ao desprezo à advocacia e aliança ao regime: a metamorfose de Sergio Moro

  • Foto do escritor: Jorge Augusto Derviche Casagrande
    Jorge Augusto Derviche Casagrande
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Na última sessão da Comissão de Segurança Pública do Senado, em 1º de abril, o senador Sergio Moro – cuja trajetória política foi construída com o discurso de combate à criminalidade, valorização das liberdades individuais e defesa das instituições – revelou sua verdadeira face ao pedir vistas ao Projeto de Lei 2734/2021, que concede porte de arma de fogo a advogados para fins de defesa pessoal.


A manobra legislativa, travestida de “precaução técnica”, soa, na verdade, como um gesto calculado de desprezo à advocacia. A classe que deveria receber do senador o reconhecimento como pilar do Estado de Direito foi, mais uma vez, humilhada. Advogados são, por força constitucional e legal, essenciais à administração da Justiça e detentores de prerrogativas que não existem por privilégio, mas por necessidade institucional. Moro, ao suspender o avanço do projeto, trata os advogados como profissionais de segunda classe se comparado a magistrados e promotores, negando-lhes inclusive o direito à legítima defesa já reconhecido a outras carreiras jurídicas.


Ao alegar dúvidas quanto ao acesso armado de advogados a fóruns e presídios, o senador demonstra desconhecimento jurídico elementar ou, pior, má-fé deliberada. Tais restrições podem e devem ser regulamentadas por normas infralegais — exatamente como já ocorre com juízes e membros do Ministério Público. Utilizar esse pretexto para travar o debate legislativo é uma afronta inaceitável à inteligência da comunidade jurídica e à dignidade da advocacia.


Para quem observa com atenção, é difícil aceitar que uma decisão tão relevante tenha sido tomada com base em critérios técnicos ou republicanos. Cada vez mais, cresce a suspeita de que outro motivo para o pedido de vista seja tão mesquinho quanto pessoal: o simples fato de o projeto ter sido subscrito pelo senador Flávio Bolsonaro. Se isso se confirmar, teremos não apenas um erro político, mas uma demonstração clara de imaturidade e pequenez institucional. Moro estaria colocando vaidades pessoais acima da segurança de uma classe inteira, punindo os advogados apenas por divergências ideológicas ou por rivalidade política com quem ousou apresentar a proposta. Isso não é postura de estadista — é atitude de alguém incapaz de separar o interesse público do ego.


É ainda mais grave quando se observa a origem política de Moro: foi eleito sob a bandeira da liberdade, da integridade institucional e do rompimento com práticas políticas tradicionais. Seu eleitorado — em expressiva parte composto por advogados, juristas e profissionais liberais — esperava dele compromisso com a coerência e com a valorização da cidadania. Em vez disso, recebeu desprezo. Recebeu traição. O mesmo senador que agora desrespeita uma classe profissional inteira foi aquele que, sem constrangimento, abraçou sorridente o ministro Flávio Dino na sabatina ao STF — um nome frontalmente contrário aos valores que dizia defender.


Essa conduta evidencia não apenas uma contradição política, mas uma perigosa arrogância de quem, liderando momentaneamente pesquisas para o governo do Paraná, já se vê sentado na cadeira do Palácio Iguaçu. Engana-se, no entanto, quem subestima a memória de seu eleitor. A advocacia é a voz das ruas nos tribunais, e a Constituição é a trincheira onde essa voz se ergue. Atacar a advocacia é atacar a espinha dorsal do Estado Democrático. É cuspir no símbolo de equilíbrio entre os poderes. É dar as costas a quem lutou – inclusive por ele – para que o Brasil reencontrasse a legalidade.


Cada vez mais, Moro distancia-se da direita – e especialmente da direita liberal e libertária – ao adotar posturas que flertam abertamente com o autoritarismo, com o gosto por castas, com a ideia de que há cidadãos mais dignos de proteção do que outros. Demonstra, na prática, que não é um defensor das liberdades, mas apenas mais um burocrata autoritário, travestido de liberal. Não é um político de direita: é apenas um petista de polo invertido, um autoritário anti-PT que repete os vícios que dizia combater, apenas com sinal trocado.


A população esperava de Sergio Moro posturas firmes, corajosas e intransigentes frente às arbitrariedades que têm sido cometidas sob o atual regime Lula-STF. Mas, ao contrário disso, ele se cala. Se cala diante da censura, se cala diante da perseguição ideológica, se cala diante da erosão das liberdades fundamentais. Em silêncio ou por omissão, parece se aliar ao establishment que dizia enfrentar. A verdade é dura, mas necessária: Moro é uma grandessíssima decepção para quem acreditou que ele faria a diferença.


Sergio Moro demonstrou que não conhece a advocacia, não respeita suas prerrogativas e não honra seu eleitorado. E pagará o preço por isso. Talvez imagine que não existam mais advogados corajosos, que a advocacia sucumbiu à omissão, rendida ao silêncio, a fadiga moral e ao medo impostos pelo regime. Pois bem — está redondamente enganado. A advocacia brasileira não se curva. E mostrará, mais uma vez, que é ela quem sustenta a Justiça quando os demais poderes falham.




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